COMETA HALLEY 

Gotículas de chuva formam a névoa que se espalha pela relva. Neblina que dança soturna nos cafundós da cidade. Caminho em direção ao denso véu leitoso. Caminho em direção ao misterioso e absoluto nada. Perder-se para sempre na floresta dos sonhos. Desintegrar-se no éter. Espalhar-se pelo universo em mil átomos. O som das asas irrompe ao vento no voo noturno. As estrelas retardatárias anunciam a aurora. O sereno acaricia meu corpo. Acendo um cigarro. Levanto a gola do casaco e enfio as mãos dentro dos bolsos. Meus sapatos sujos deslizam no orvalho da grama. Morcegos rodeiam a cabeça do minotauro no final do labirinto. Saturno se esconde na rabeira do planeta. A luz do poste desenha uma sombra oblíqua no chão. A brisa estereofônica sopra segredos em meus ouvidos. Fogos de artifício pintam o cosmo de néon. O cometa Halley risca o céu.

 (texto e arte: Sandro Saraiva)