SATÉLITE
Da viela onde acontecia a feira de antiguidades deu para ver um objeto estranho surgir no céu. Era uma espécie de prédio de metal que se juntava a outro fragmento. Um homem com manto e chapéu esquisito berrava no megafone querendo saber quem seriam os próximos humanos a embarcar rumo ao planeta Sóh. A abóboda era azul e a nave se movia lentamente, raios de sol refletiam na sua lataria. Via-se a calha de um telhado. As pessoas se escondiam atrás das barracas para que o homem não as levasse para a nave. No galpão rolava uma intriga sobre quem eram os traficantes de humanos. Paralaxe é a diferença na posição aparente de um objeto em relação a um plano de fundo, tal como visto por observadores em locais distintos ou por um observador em movimento. Em astronomia, a paralaxe estelar é utilizada para medir a distância das estrelas utilizando o movimento da Terra em sua órbita. O antídoto então se transformou em veneno. Desço a íngreme ladeira num carrinho velho de supermercado sem as duas rodas dianteiras – o ferro em atrito com o asfalto salpica minha cara com lanças de faísca. Viajei no último vagão vazio do último trem do metrô. Criei um guia de ruas sem saída e terrenos baldios. Gosto de caminhar à noite debaixo da garoa. Eu guardei uma reserva de alegria (com prazo de validade vencido) para me juntar ao coro dos bêbados.
(texto e arte: Sandro Saraiva)
