AUTOFAGIA
Gurgião, deus da gula e da pilhagem, teceu sua própria mulher. Assim, juntou estrelas cadentes e aurora austral para criar Nöite, a mulher de cabelos escarlate.
Nöite tinha sardas no rosto e um nariz pequeno e arrebitado, que lhe conferia um permanente ar jovial. Sua pele alva cheirava a jasmim. Gostava de passar delineador preto nos olhos, nuclearmente esverdeados. e tinha um sorriso tímido e obsequioso. As maçãs do rosto, proeminentes, ficavam levemente avermelhadas toda vez que sorria. Gurgião colhia flores delicadas para enfeitar os cabelos escarlate de Nöite.
O ósculo era pura psilocibina e mantinha Gurgião inebriado. O frisson em seu corpo fazia-o mergulhar em torrentes de dopamina. O cheiro almiscarado da vulva de Nöite permanecia, noites a fio, na memória de Gurgião, que agora não passava de um junkie triste.
Quando, enfim, em meio a sonhos intranquilos, descobriu que Nöite não existia, passou a stalkeá-la no Instagram. No vídeo, ela bailava soturna e caliente entre dois homens de dorso forte e pau em riste. Usava apenas luvas de ópera e sandálias de couro de salto agulha. Com o corpo coberto de glitter, fodia de forma animalesca ali mesmo, no chão, sobre um tapete persa decorado com desenhos geométricos. Um emaranhado de felação, suor, músculos, nádegas e dupla penetração em coito alucinado iluminado apenas pela luz turva do abajur.
Gurgião passou a sofrer de insônia e agora era assombrado pelo sorriso tímido de Nöite toda vez que ligava o abajur ou quando ouvia sussurros febris através da parede do quarto. Corroído, desmanchava-se em culpa e tesão no onanismo feroz e solitário de seu autoexílio involuntário.
