VÓRTICE
Górkis — era assim que Stênio chamava os animaizinhos que habitavam o copo de aguardente. Sempre que sorvia suas doses diárias, eles apareciam no fundo, apontando arpões afiados em sua direção. Vozes estrídulas em uníssono ordenavam sempre por mais e mais; ecoavam das profundezas da caverna escura, entoando antigas canções de marinheiro.
Desde criança, Stênio tem o mesmo pesadelo, no qual é sodomizado por um velho índio. “Estupraram nossas crianças e mulheres, aniquilaram meus ancestrais, homem branco”. Lacerado pela lepra, às vezes o índio sai de dentro do corpo de Stênio e finca cordéis através dos quais manipula sua vontade.
Stênio caminha trôpego pela cidade, cambaleando pela calçada cheia de buracos e desníveis. A avenida vazia projeta-se na escuridão que se insinua a alguns quarteirões adiante. O vermelho do semáforo pinta a poça de chuva ao meio-fio, refletido como fogo selvagem. Um ônibus enfeitado com luzes natalinas irrompe da escuridão como se fosse um veículo de Tron. É o último ônibus da noite.
O fantasma de Beibydurin surge sob a densa lua da madrugada. Rodopia na encruzilhada empunhando a espada e o cálice. Um arranjo de jasmim enfeita seus cabelos noturnos. O rosto, adornado por pinturas delicadas, ostenta um sorriso débil.
Entre a Demétrio Ribeiro e a Dante Pellacani, Stênio descobre que demoliram a casa térrea e retangular, de piso de cacos vermelhos, onde havia um balanço e um gira-gira no quintal. No lugar, há agora um prédio estéril.
