Fiquei impressionado com a quantidade de matérias e comentários a respeito da morte do Zé Mojica Marins ontem. Sem dúvida nenhuma, Mojica e seu personagem Zé do Caixão são símbolos incontestes do cinema brasileiro. Goste ou não de seus filmes, ou “fitas”, como ele costuma chamar.
No início deste século, eu editava, junto com o Douglas Silva, a Marici Silveira e a Adriana Aranha, a Etcetera – revista eletrônica de arte e cultura. A publicação durou dez anos e em todo número nós publicávamos uma entrevista. Foram 25 números e num deles entrevistamos o Zé Mojica.
Na época eu trabalhava na Folha de São Paulo e circulava muito pelo centro da cidade. Num dia trombei o Mojica num boteco lá pelas redondezas dos Campos Elíseos. Sempre quis entrevista-lo para alguns projetos malsucedidos de zine que tive nos anos noventa. Para mim o Mojica sempre foi uma espécie de zineiro do cinema nacional. O cara que, mesmo sem os recursos necessários, fazia o negócio acontecer. Criatividade no peito e na raça, potência de vontade. Ainda mais num meio que sempre considerei meio pequeno aburguesado. Não tive dúvidas em convidá-lo para nos conceder a entrevista. Lembro-me de ter ficado surpreso com sua estatura. Nunca havia imaginado que por traz daquela capa preta de Zé do Caixão existia um homem franzino. Na tela, o coveiro sempre me pareceu uma figura agigantada. Prova de suas habilidades de enquadramento.
A conversa rolou numa tarde cinzenta no prédio da Duque de Caxias com a São João, onde ficava seu escritório na época. Sentado num trono diabólico, cenografia de alguma produção do passado, no pequeno cômodo com a parede forrada de pôsteres de seus filmes e resenhas de revistas enquadradas, Mojica falava mansamente com seu jeito inconfundível, repetindo a cada frase o “praticamente” que virou uma marca, sobretudo depois que a turma do Hermes e Renato criou o quadro com o José “Canjica” Martins, alguns anos depois.
Quando a entrevista terminou, Mojica nos convidou para tomar um “cafezinho” na padaria que ficava ali no mesmo quarteirão do prédio. Eu já tinha metido o gravador na bolsa e o Douglas já tinha guardado a câmera. Enquanto descíamos no elevador, Mojica começou a nos contar uma história. Falava de uma maneira espontânea, sem nenhum cacoete de quem está inventando na hora. Aquele jeitão de contar um “causo” parecia intrínseco de sua personalidade. Seu cinema me parecia mesmo como sua forma muito particular de existir no mundo.
“Quando eu tinha meu programa na Band nos anos 60 [Além, Muito Além do Além, de 1967, gozava de bons índices de audiência na época] um homem me procurou dizendo que precisava muito conversar comigo.”. - falou olhando para o nada enquanto tirava o maço de cigarros do bolso da camisa.
“Não sei por que ele me procurou, mas eu era a única pessoa que tinha um programa de TV que tratava do sobrenatural. Autorizei o pessoal da produção a passar meu telefone. Ele me ligou no dia seguinte”.
Saímos do prédio e já na calçada Mojica acendeu um cigarro e continuou, mantendo sempre umas pausas sinistras no meio da narrativa. “Marcamos o encontro numa pracinha lá no Glicério, era um lugar que na época estava sempre vazio. Ele disse que precisava me mostrar uma coisa que só mesmo uma pessoa como eu poderia acreditar. Parecia que estava procurando ajuda”. Deu um trago longo no cigarro e soltou a fumaça pelas narinas. “Mas você precisa vir sozinho, o homem enfatizou antes de desligar o telefone”.
“Quando cheguei lá, fiquei esperando um tempo. Pensei que ele não apareceria e que eu tinha caído em algum trote”. Nessa altura, parecíamos íntimos de Mojica. Era como conversar com um velho camarada. “De repente apareceu aquele homem alto e esguio detrás de uma árvore e veio em minha direção”. “Agradeço por ter vindo. Desculpe o atraso, mas eu tinha que ter certeza que você estava mesmo sozinho”. Mojica nos contou que o homem havia lhe procurado por que tinha um “estranho dom” e tentava entender a muito tempo o que era aquilo. “Eu consigo acender qualquer coisa com um simples toque de meus dedos”. “No começo não entendi o que ele estava tentando me dizer, foi então que coloquei um cigarro na boca e enfiei a mão no bolso para pegar a caixinha de fósforos”- contou. “O homem estalou os dedos e o cigarro se acendeu.” “É isso que acontece comigo, posso acender qualquer coisa num simples estalar de dedos. Em casa, eu acendo e as bocas do fogão sem ter que usar fósforos ou isqueiro.” Embora a história fosse hilária e estapafúrdia, Zé contava com uma verdade condescendente. “Marquei um segundo encontro na minha casa, mas o homem me fez prometer que eu não levaria ninguém. Não queria de jeito nenhum aparecer no meu programa de tevê.” Entramos na padaria e Mojica pediu três “cafezinhos”. No balcão encardido, enquanto bebericávamos nossos cafés servidos em copos americanos – o reflexo de Mojica dançava distorcido na máquina de coar café Recorde – ele prosseguiu com a narrativa como se falasse de algo corriqueiro, como algum lance de impedimento no futebol ou o aumento do preço da gasolina. “O problema é que acabei encontrando com o Silvio Santos e comentei com ele o que havia acontecido. Falei até que voltaria a me encontrar com o homem”.
Na sequência, Mojica nos contou que no dia do encontro, Silvio Santos apareceu em sua casa. Veio com uma equipe com câmeras a tiracolo. Queria porque queria filmar o estranho fenômeno. “O homem não apareceu. Eu fiquei puto com o Silvio, eu não o havia convidado para ir à minha casa. Fiquei alguns anos sem falar com ele por conta disso. No dia seguinte, o homem me ligou.” Engoliu o último gole de café e pôs a mão no bolso para pagar. Eu o impedi, fiz questão de pagar pelos cafés. “Eu confiei em você, mas você tinha uma equipe em sua casa para me filmar. Nunca mais nos veremos. E desligou o telefone.” – finalizou com uma voz meio embargada. “Me arrependo até hoje de ter comentado sobre o encontro com o Silvio”.
Agradecemos pela entrevista e o vimos caminhando lentamente de volta para o prédio, as mãos para trás do corpo meio envergado. “Olha lá, Douglas, lá vai o Zé do Caixão!” e partimos com a sensação de dever cumprido.
Voe livre e leve, Mr. Coffin Joe!
(texto escrito e publicado em 19/02/2020)
